|
|
|---|
Foi
no fim do século XIX que surgiu claramente a necessidade de identificar os
malfeitores com precisão, lhes dar uma identificação judiciária.
Identificar
um indivíduo a partir de um sinal, de uma população, significa separar após
o reagrupamento das características que em natureza e em quantidade são próprias
de certos indivíduos e pertencem a ele somente. É necessário, portanto,
dispor de dados constantes e precisos, se possível, fáceis de medir e que
permitam uma classificação cômoda, para então possibilitar uma recuperação
confiável e rápida desses dados.
"A
presença do nome declarado sobre um registro civil é suficiente para afirmar
que existe o indivíduo em questão, mas não prova que o nome corresponde
realmente àquele indivíduo que está com o documento em suas mãos".
Alphonse Bertillon, Conferência de Roma em 1885.
Alphonse
BERTILLON inventou um método rigoroso e racional que lhe permitia identificar
um reincidente a partir de uma série de levantamentos sempre idênticos de suas
medidas físicas. Ele põe o ponto de fichas sinaléticas que continham fotos,
mensurações e sinais particulares.
Um
indivíduo já cadastrado no serviço antropométrico é medido e identificado
por comparações de fichas em 15 minutos.
As
medidas são relacionadas, com precisão em milímetros, numa ordem uniforme e
as fichas são classificadas primeiramente por sexo, por ano de nascimento
depois pela altura, comprimento da cabeça, largura da cabeça, comprimento do
dedo médio esquerdo, comprimento do pé esquerdo, pela grande envergadura e
pela cor da íris.
|
|
|
|
O
método de Bertillon, veiculado por numerosas publicações e exposições
universais de Paris em 1889 e de Chicago em 1893, foi reconhecido como sucesso
internacional, e por isso foi adotado pelas polícias do mundo inteiro.
Entretanto
o método tinha as suas limitações: Inaplicável aos menores de idade e às
mulheres, demandava muito rigor nas medições, e era muito custoso em termos de
recursos humanos e de material.
Em
complemento a antropometria, Bertillon elabora o sistema do retrato falado que
indica a forma dos traços do rosto e permite o reconhecimento de um indivíduo
em via pública.
Os
trabalhos de Henry Faulds, William Hershell, Francis Galton, Edward Henry e Juan
Vucetich notadamente permitem destacar os anos 1890-1900 com um outro método de
identificação que não apresentava as inconveniências da antropometria: as
impressões digitais.
Elas
são imutáveis, inalteráveis e próprias a cada ser humano.
A
identificação se faz inicialmente pelo tipo geral da impressão: Arco,
presilha externa, presilha interna, verticilo ou voluta, depois pelos pontos
característicos, ou minúcias, que são os acidentes das cristas papilares: fim
de linha, bifurcações, forquilha, ilhota, etc.
São
suficientes para se afirmar a identidade de duas impressões digitais ser houver
12 pontos concordantes e nenhum de divergente.
Uma
marca deixada por um dedo sobre um suporte pode ser identificada pela comparação
com uma impressão digital.
A
partir 1894, Bertillon passou a apresentar as impressões digitais sobre suas
fichas antropométricas. Para ele, elas não passavam de um complemento aos
dados sinaléticos. Entretanto ele propôs um método de classificação. Cada
tipo geral ele fez corresponder uma letra: e, i, o, u. Somente o polegar,
o médio, o indicador e mínimo direito é que são levados em conta no momento
de fazer o fichamento. Depois de algum tempo suas fichas evoluíram, passando a
conter todos os dedos.
Em
1920, a França adotou definitivamente as impressões digitais.
Em
17 de outubro de 1902, é encontrado um cadáver, na rua Faubourg Saint-Honoré,
de Paris, número 157. A vítima era Joseph REIBEL, empregado doméstico,
encontrado no consultório de seu patrão, o dentista Joseph ALAUX.
Os
primeiros exames permitiram estimar que o crime havia ocorrido em 16 de outubro,
por volta das 18 horas. REIBEL havia sido estrangulado durante uma luta com o
agressor. Numerosos objetos de valor foram subtraídos do apartamento. O caráter
violento do homicídio não deixava dúvidas. Observou-se que o vidro de uma
vitrine do grande salão estava quebrado, peças de ouro desapareceram. Além
disso, parece igualmente que haviam aberto os batentes de um móvel do grande
consultório e que o material dentário a base de metal precioso havia
desaparecido. E ainda, foram forçadas as gavetas da escrivaninha uma outra sala
e foi levada uma soma de 1600 francos.
Na
tarde de 17 de outubro, Alphonse Bertillon, chefe de identificação judiciária,
comparece ao local para fotografar a cena do crime. Seu olhar profissional é
atraído pelas manchas sobre o batente da vitrine do grande salão do qual ele
recolhe os pedaços de vidro para fotografar.
Entrando
em seu serviço, Bertillon fica quatro dias a fotografar os fragmentos de
impressões digitais encontrados sobre um pedaço de vidro, e se esbarra na
dificuldade de isolar duas imagens que, em transparência, se confundem. Com
efeito, as cristas papilares de um dedo aparecem sobre a face externa da vidraça,
enquanto que as impressões de três outros dedos situam-se sobre a face
interna. O ladrão provavelmente tentou segurar entre seus dedos o vidro para
destacá-lo.
Mas
Bertillon teve sorte, pois eram quatro fragmentos de impressões papilares da mão
direita que o ladrão deixou correspondentes justamente aos quatro dedos que
eram coletadas desde 1894 sobre as fichas de sinalização. Após uma minuciosa
busca, os fragmentos foram identificados em 24 de outubro de 1902 como tendo
sido deixadas pelo nominado Henri Leon SCHEFFER, de alcunha "Georges o
artilheiro", já conhecido pela polícia, por causa de furto.
Este
foi o primeiro caso de identificação por meio de uma busca a um arquivo de
fichas, e não apenas por comparação direta com um suspeito (em 1892, na
Argentina, Francisca Rojas, presa por um duplo infanticídio, foi identificada
por suas impressões sanguinolentas, que ela deixou em uma porta).
Em
30 de outubro de 1902, Scheffer foi localizado e detido, em Marseille. Seu
julgamento ocorreu em 14 e 15 de março de 1903. Scheffer confessou
haver cometido o furto contra o doutor ALAUX com a cumplicidade de REIBEL,
em seguida matou este último na disputa da partilha.
Mantendo
a tese do homicídio sem premeditação, o júri condena Scheffer a prisão perpétua
de trabalhos forçados. Recolhido à prisão de Saint Laurent de Maroni, faleceu
em seis de abril de 1905.
A
busca e identificação de fragmentos de impressões papilares de origem
digital, método de investigação excepcional à época de Alphonse BERTILLON,
é atualmente generalizado.
A
localização de fragmentos papilares é feita por meio de numerosas técnicas físicas
e químicas permitindo o tratamento de quase todos tipos de suportes: pós
tradicionais e magnéticos, iluminação com luz monocromática (de
infravermelho à ultravioleta), ninidrina, cianoacrilato, DFO, metalização a vácuo,
etc.
Atualmente,
os Arquivos Automáticos de Impressões Digitais - o AFIS - permite identificação
para fins civi, em tempo real, e a identificação dos fragmentos de impressões
digitais levantados nas cenas de crime.
Este
Arquivo compreende 1.600.000 indivíduos inseridos em razão de procedimentos
penais. A Cada mês, na Prefeitura de Polícia de Paris, cerca de 130
malfeitores são identificados através das marcas de impressões digitais.
A
próxima versão do AFIS compreenderá igualmente as impressões palmares e as
fotografias antropométricas. As impressões digitais coletadas e as fotos de
frente e de perfil serão encaminhadas após a numeração no AFIS, melhoradas a
qualidade das imagens do tipo documentário.
Os
gerentes de cenas de crime de identificação judiciária, chamados Técnicos
de Cenas de Crime, estão habilitados a efetuar todos as coletas de evidências
físicas, químicas e biológicas suscetíveis de concorrer para manifestação
da verdade.
A
fim de não contaminar a cena do crime por sua intervenção, eles vestem uma
roupa especial: macacão branco, botas, tocas para a cabeça e, certamente,
luvas. Dispõem, ainda, além das maletas tradicionais de coletas, de
iluminadores de luz monocromática ou de aspirador de micro partículas.
E
O AMANHÃ?
As
técnicas de realização do retrato-robô, atualmente informatizado, serão
melhorados pela formação de desenhistas nas entrevistas cognitivas com os
testemunhas e vítimas.
A
comparação das imagens de saída de vídeo-vigilância com as bases de dados
de fotografias antropométricas serão automatizadas.
A
partir de agora a polícia técnica e científica trabalha na coleta de odores
nas cenas de crimes e sua identificação.
-
La police technique et scientifique. Charles DIAZ, Que sais-je Nº 3537.
-
La criminalistique, Jacques FOMBONNE, Que sais-je
Nº 370;
-
Police judiciaire, la scène de crime, Béatrice DURUPT, Dècouvertes
Gallimard
-
Crime et science, David OWEN, Tana Editions.
Elaborado pelo Museu da Polícia de Paris, por
ocasião da mostra, em outubro de 2002 em comemoração ao centenário da
identificação papiloscópica.
Colaboração: Phillipe Meulle.Tradução: Clemil J Araújo.